Carla Romão - Sobrevivente de Cancro da Mama
Em fevereiro de 2022, a minha vida mudou para sempre, fui diagnosticada com carcinoma bilateral da mama, duplamente raro por ser bilateral, com tumores distintos e agressivos, um deles já com envolvimento ganglionar.
Do momento em que o processo deu entrada no hospital até ao início da quimioterapia neoadjuvante,
passaram três meses longos e angustiantes. Em nenhuma consulta, antes ou durante os tratamentos, me foi recomendado o exercício físico como parte dos cuidados de saúde, nem para aumentar a eficácia global dos tratamentos, nem para reduzir efeitos secundários e preservar a minha funcionalidade (força, equilíbrio e massa muscular).
Durante os três meses de espera, o exercício podia ter-me ajudado a manter força e massa muscular, sustentar a função imunitária e o bem-estar, facilitando a tolerância aos tratamentos e o dia-a-dia.
Como consequências dos tratamentos, desenvolvi neutropenia e duas infeções agudas na boca pela eclosão de um dente do siso e com isso, fui obrigada à interrupção dos ciclos de quimioterapia. Sofri ainda cardiotoxicidade associada à quimioterapia, levando à acumulação de líquido na pleura e a um pequeno derrame pericárdico que felizmente se tornaram reversíveis. Além da perda de peso associada aos tratamentos, a descida das plaquetas e a imunidade reduzida, expuseram-me a uma infeção por bactéria resistente no intestino. O quadro exigiu internamento, acabando por agravar mais ainda a perda de peso e massa muscular, deixando-me num estado marcado de fraqueza e fragilidade.
Não cheguei a concluir os dois últimos ciclos de quimioterapia. Após as cirurgias de remoção dos carcinomas, tive recidiva da infeção e novo internamento. Mais tarde, 30 sessões de radioterapia trouxeram cansaço extremo e nova queda das plaquetas.
A perda de força e equilíbrio resultaram em duas quedas no espaço de seis meses, ambas com fraturas das costelas. A enorme necessidade de me tentar fortalecer, juntamente com a minha iniciativa em fazer pesquisas sobre o exercício na doença oncológica, surgiu-me a página da MEDMOVE e as informações gentilmente partilhadas pelo Luís, que fizeram toda a diferença e ainda fazem, na minha recuperação e superação através dos seus treinos personalizados que passei a integrar. O paradoxo é que, já nessa altura, as recomendações internacionais aconselhavam exercício regular (aeróbio e de força) em todas as fases da jornada oncológica.
Hoje, olhando para trás, acredito que se o exercício tivesse sido integrado desde o início da trajetória, poderia ter enfrentado os tratamentos de uma forma menos negativa.
Estou muito grata ao Luís pelo seu profissionalismo e todo o empenho naquilo que faz com excelência, desejando que estas informações cheguem ao maior número de pessoas a precisar que for possível.
Tenho esperança de que, num futuro próximo, os planos de saúde com exercício clínico sejam incluídos no SNS, não como “extra”, mas como parte do tratamento ativo.
