Saúde Muscular / 03-05-2023
Cuidar da força muscular é garantir longevidade com qualidade.
O músculo esquelético compreende cerca de 40% do peso corporal e é o tecido mais abundante do corpo humano. É composto maioritariamente por água, proteína, sais inorgânicos, minerais, gordura e carboidratos. A sua principal função, do ponto de vista mecânico, é a conversão de energia química em energia mecânica para gerar força e produzir movimentos, conferindo independência física. Do ponto de vista metabólico, contribui para o metabolismo de energia basal, ajuda a regular a temperatura corporal, colabora na manutenção da glicemia durante períodos de jejum e consome grande parte do oxigénio e substratos energéticos durante a atividade física/exercício físico. O músculo também armazena substâncias, como os aminoácidos (utilizados por outros órgãos) e a glucose e produz miocinas (1).
Sabias que?
Miocinas – Quando o músculo contrai, produz umas substâncias benéficas para a saúde denominadas de miocinas, uma espécie de mensageiros químicos similares a hormonas, que possuem ação endócrina, ou seja, agem em outros tecidos do nosso corpo, chegando até aos mesmos através da corrente sanguínea, tendo um papel de extrema importância no tratamento de doenças não comunicáveis, sendo capazes de restaurar o equilíbrio metabólico e a saúde.
Possui ainda um papel de extrema relevância na prevenção de doenças e na manutenção da saúde, por isso, a massa muscular reduzida é prejudicial à capacidade do corpo responder a doenças crónicas e a situações de stress. É, portanto, de relevo o papel dos nossos músculos e o seu pleno funcionamento, caso contrário, quando começam a falhar ou a apresentar problemas, provocam o desenvolvimento de uma série de complicações (2).
Há 10 mil anos atrás, o ser humano vivia como caçador-recolector, necessitando de se mover para procurar comida, abrigo e tudo o que era necessário à sua sobrevivência. Podemos pensar que 10 000 anos é bastante tempo, no entanto, quando falamos dos genes, é algo pouco relevante em termos de adaptação. Os antropólogos calculam que os nossos antepassados dariam à volta de 12 000 a 18 000 passos diários (8km-12km). Nos dias que correm, muitas pessoas nem 2km por dia conseguem alcançar, ou seja, aproximadamente 3 000 passos.
O ser humano evoluiu com o movimento e com a atividade física árdua e adaptou-se precisamente para o fazer. Porém, a vida moderna proporciona-nos uma enorme ausência de esforço, outrora requerido, tudo o que o nosso genoma (DNA) não foi “arquitetado” para fazer. Segundo o Eurobarómetro (2022), Portugal é o pais da UE onde menos se pratica exercício físico: cerca de 73% das pessoas referiu nunca praticar a atividade, comparativamente com 2017, a taxa subiu mais 5%.
Aliando o sedentarismo ao avanço da medicina e à produção de novos medicamentos, as pessoas vivem mais anos, mas mais doentes e com menor qualidade de vida. De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA), a percentagem de pessoas entre os 25 e os 74 anos que vivia com uma ou mais doenças crónicas em Portugal no ano de 2015, era de 57,8%.
A cada ano morrem 41 milhões de pessoas devido a estas patologias, o equivalente a 74% das mortes em todo o mundo (OMS 2022).
O envelhecimento é o processo do declínio progressivo e irreversível das funções fisiológicas do organismo, induzido pela acumulação de danos em resposta a uma variedade de stressores que levam ao aparecimento de doenças. No entanto, os nossos comportamentos podem acelerar ou atrasar esse processo. Sabemos hoje que a falta de exercício físico pode promover o aparecimento de 40 doenças crónicas (3) e a adoção de estilos de vida saudáveis pode prevenir ou atrasar o seu desenvolvimento. O treino de força em particular, juntamente com outros hábitos de estilo de vida saudáveis, assume um papel de vital importância na prevenção e tratamento destas doenças, contribuindo para uma longevidade saudável, o atraso e até a reversão do processo de envelhecimento. Vejamos alguns dos seus benefícios mais conhecidos e sustentados pela evidência científica (4-8):
- Reduz o tecido adiposo e aumenta o metabolismo de repouso;
- Reduz a pressão arterial e melhora a condição vascular;
- Melhora a sensibilidade à insulina, a homeostasia da glicose e o perfil lipídico sanguíneo;
- Aumenta a densidade mineral óssea;
- Melhora a autoestima, a autoconfiança e a capacidade cognitiva;
- Previne e trata dores crónicas;
- Reduz o risco de determinados tipos de cancro, melhora a eficácia do seu tratamento e reduz os efeitos secundários;
- Aumenta a independência funcional, a força, a função e a massa muscular
- Reverte os fatores de envelhecimento no músculo;
- Previne e reverte a sarcopenia.
Sabias que?
Sarcopenia – é uma doença muscular caracterizada pela perda gradual de força e massa muscular, decorrentes da idade, sendo mais comum em adultos de idade avançada, mas também pode acometer pessoas mais jovens.
A ciência é dinâmica e ainda só foi revelada a ponta do iceberg, no que aos benefícios do treino de força dizem respeito.
Em particular, a prevenção e a reversão da Sarcopenia (9) é de extrema importância, pois a esta estão associadas uma série de condições clínicas, que podem ser tratadas e/ou até mesmo prevenidas, se a força e a massa muscular forem devidamente desenvolvidas. A partir dos 30 anos, o ser humano perde cerca de 3% a 8% da massa muscular em cada década, mas depois dos 60 anos a perda é ainda maior (10).
Concomitantemente, a força muscular diminui 10 a 15% por década até aos 70 anos, passando posteriormente a ser de 25% a 40%, em cada 10 anos (11).
Quando falamos de treino de força, ainda existe muito a sua associação com a estética e não propriamente com a longevidade e a saúde. A mensagem que ainda é bastante difundida e comumente aceite pela sociedade, é a de que o exercício físico consiste apenas em realizar atividades físicas, como correr, caminhar e realizar hidroginástica. Mas será isto suficiente para contrariar os efeitos da sarcopenia?
Vejamos. Fisiologicamente falando, realizar esse tipo de exercícios ou exercícios de força (levantamento de pesos), é completamente distinto, e cria adaptações fisiológicas diferentes. Se queremos aumentar a força e a massa muscular de forma significativa, limitarmo-nos a realizar só as atividades supramencionadas, será insuficiente e poderá mesmo ser contraproducente, pois em alguns casos pode até levar à perda muscular (dependendo de diversos fatores).
Não quer isto dizer que realizar atividades físicas aeróbias seja mau, também possui os seus benefícios. Contudo, para termos resultados significativos ao nível da massa muscular e força, é insuficiente, sendo importante direcionar o estímulo para que a adaptação a nível muscular ocorra. E para isso, necessitamos de atender a alguns princípios fundamentais do treino de força, como são exemplos o princípio da especificidade e o princípio da sobrecarga progressiva, muitas vezes negligenciados.
O primeiro, o da especificidade, que nos diz que temos de impor ao corpo um estímulo específico para esse efeito: ou seja, se queremos ficar mais fortes e funcionais, terá mesmo de ser através do levantamento de pesos. Ninguém fica mais forte a correr ou a caminhar apenas. O segundo, o princípio da sobrecarga progressiva, diz-nos que é necessário gerar uma sobrecarga no sistema músculo-esquelético de forma progressiva, ao longo do tempo: ou seja, o corpo necessita de ser submetido a estímulos progressivamente maiores. Este princípio do treino de força está espelhado na lenda de Milo de Crotona (12,13). Segundo a mesma, Milo era considerado o maior lutador grego dos jogos olímpicos da antiguidade (vencendo-os seis vezes!), e para alcançar tal proeza, todos os dias carregou um bezerro às costas desde a sua nascença, durante 4 anos. E à medida que o bezerro ia crescendo, a força dele também, até que se tornou um touro e Milo foi considerado o homem mais forte do mundo. Nesse tempo, o lutador travava as suas batalhas na arena, nós, como seres humanos, também somos atletas e travamos as nossas lutas, mas na arena da vida, sendo o nosso maior oponente o envelhecimento e as doenças que dele podem advir.
Como vimos, para que o treino de força tenha os devidos efeitos devemos cumprir rigorosamente os critérios da sua aplicação, de forma a potencializar os seus benefícios. Se o objetivo é garantir uma longevidade com qualidade, é imprescindível a realização de treino de força, com os princípios adequados, de forma a cuidar da nossa força muscular e a prevenir o aparecimento das diversas condições de saúde. Pessoas com níveis de força e massa muscular mais elevados, tendem a viver mais, segundo vários estudos (14,15). Temos sempre a escolha da forma como queremos envelhecer: se a tomar medicamentos, frágeis, doentes, sem independência física e a sofrer, ou se viver uma vida plena e com vitalidade, até ao final.
O treino de força é, em última instância, um verdadeiro smart aging.
“A falta de atividade física destrói a boa condição de qualquer ser humano, enquanto o movimento e o exercício físico metódico o salva e o preserva.”
Hipócrates – Pai da Medicina (428 a.C. -348 a. C.)
PONTOS CHAVE DO TREINO DE FORÇA PARA UMA LONGEVIDADE SAUDÁVEL:
- A força é a base para uma interação eficiente com o nosso meio físico envolvente: baixos níveis de força não permitem que o façamos e que realizemos as atividades físicas que mais prezamos;
- Quanto mais força e massa muscular possuirmos, mais iremos conseguir mitigar o nosso declínio e prolongar a qualidade de vida;
- O treino de força é sinónimo de saúde e longevidade com qualidade;
- Os exercícios de força são seguros;
- Olhar para o treino de forma meramente estética é redutor;
- Caminhar/correr e fazer hidroginástica, é bom, mas insuficiente para criar uma saúde forte e funcional;
- Realizar treino de força em qualquer idade, pelo menos 2-3 vezes por semana, seguindo os princípios de treino, para haver uma progressão segura e sustentável.
Bons Treinos,
Luís Paranhos
Referências Bibliográficas:
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